quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Patativa do Assaré-Ana Julia nº1 7D

Patativa do Assaré
Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré, nasceu em Serra de Santana no Ceará em 1909 e morreu em Assaré em 2002.
Quando era pequeno, se mudou com sua família para uma pequena propriedade perto de Assaré. Com um ano de idade, pegou sarampo e perdeu parcialmente a visão do olho direito.
Com oito anos, seu pai morreu e, então, passou a ajudar no sustento da casa trabalhando em agricultiras de subsistencia e em culturas de algodão.
Só foi a escola por seis meses e foi para a literarura por meio do cordel e de repentistas.
Conseguiu um violão com dezesseis anos e passou a se dedicar a compor versos cantados.
Aos vinte anos, foi para Fortaleza, onde frequentou os salões literários de Juvenal Galeno. Depois foi para Belém. Onde conheceu o jornalista José Carvalho de Brito, que publicou seus primeiros textos no jornal Correio do Ceará. Foi Brito que lhe deu o apelido de Patativa, que foi usado pela primeira vez em um capítulo dedicado a ele em seu livro O Matuto Cearence e o Caboclo do Pará.
O primeiro livro de Assaré chamado Inspiração Nordestina foi lançado em 1956, no Rio de Janeiro, com a ajuda de José Arraes de Alencar. Oito anos mais tarde, sua visibilidade foi ampliada com a gravação de Triste Partida, por Luiz Gonzaga, e Sina, por Raimundo Fagner.
Em 1978, lançou Cante Lá que Eu Canto Cá, e luta contra a ditadura militar. Voltou a morar em Assaré no ano seguinte.

    Cante lá, que eu canto cá

    Poeta, cantô de rua,
    Que na cidade nasceu,
    Cante a cidade que é sua,
    Que eu canto o sertão que é meu.

    Se aí você teve estudo,
    Aqui, Deus me ensinou tudo,
    Sem de livro precisá
    Por favô, não mêxa aqui,
    Que eu também não mexo aí,
    Cante lá, que eu canto cá.

    Você teve inducação,
    Aprendeu munta ciença,
    Mas das coisa do sertão
    Não tem boa esperiença.
    Nunca fez uma paioça,
    Nunca trabaiou na roça,
    Não pode conhecê bem,
    Pois nesta penosa vida,
    Só quem provou da comida
    Sabe o gosto que ela tem.

    Pra gente cantá o sertão,
    Precisa nele morá,
    Tê armoço de fejão
    E a janta de mucunzá,
    Vivê pobre, sem dinhêro,
    Socado dentro do mato,
    De apragata currelepe,
    Pisando inriba do estrepe,
    Brocando a unha-de-gato.

    Você é muito ditoso,
    Sabe lê, sabe escrevê,
    Pois vá cantando o seu gozo,
    Que eu canto meu padecê.
    Inquanto a felicidade
    Você canta na cidade,
    Cá no sertão eu infrento
    A fome, a dô e a misera.
    Pra sê poeta divera,
    Precisa tê sofrimento.

    Sua rima, inda que seja
    Bordada de prata e de ôro,
    Para a gente sertaneja
    É perdido este tesôro.
    Com o seu verso bem feito,
    Não canta o sertão dereito,
    Porque você não conhece
    Nossa vida aperreada.
    E a dô só é bem cantada,
    Cantada por quem padece.

    Só canta o sertão dereito,
    Com tudo quanto ele tem,
    Quem sempre correu estreito,
    Sem proteção de ninguém,
    Coberto de precisão
    Suportando a privação
    Com paciença de Jó,
    Puxando o cabo da inxada,
    Na quebrada e na chapada,
    Moiadinho de suó.

    Amigo, não tenha quêxa,
    Veja que eu tenho razão
    Em lhe dizê que não mêxa
    Nas coisa do meu sertão.
    Pois, se não sabe o colega
    De quá manêra se pega
    Num ferro pra trabaiá,
    Por favô, não mêxa aqui,
    Que eu também não mêxo aí,
    Cante lá que eu canto cá.

    Repare que a minha vida
    É deferente da sua.
    A sua rima pulida
    Nasceu no salão da rua.
    Já eu sou bem deferente,
    Meu verso é como a simente
    Que nasce inriba do chão;
    Não tenho estudo nem arte,
    A minha rima faz parte
    Das obra da criação.

    Mas porém, eu não invejo
    O grande tesôro seu,
    Os livro do seu colejo,
    Onde você aprendeu.
    Pra gente aqui sê poeta
    E fazê rima compreta,
    Não precisa professô;
    Basta vê no mês de maio,
    Um poema em cada gaio
    E um verso em cada fulô.


Fontes:
Imagem: http://capitaldosertao.blog.terra.com.br/files/2009/05/patativa.jpg
Biografia: http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_lit/index.cfm?fuseaction=biografias_texto&cd_verbete=5271&cd_item=35
Poema: http://www.blocosonline.com.br/literatura/poesia/p01/p010389.htm

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